Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Como integrar o seu dragão

INTRODUÇÃO

Soluço e Banguela, seu dragão Fúria da Noite
 “Como treinar o seu dragão” (CTSD) é um filme interessante não somente porque expressa o desenvolvimento da personalidade na adolescência, mas também o confronto com partes inferiores da psique, manifesto como evolução da consciência, do impulso de ser quem se é, o processo de individuação. No título do filme “Como treinar O SEU dragão”, os artigos definido e possessivo “o seu” parecem também apontar simbolicamente para algo íntimo, pessoal. No entanto, o “treino” aludido não descreve perfeitamente o que Soluço faz com o seu dragão, pois ele mais o conquista do que o treina. Basta ver como Banguela retribui as iscas do amigo regurgitando partes delas para sua refeição. O mesmo ocorre com o desenvolvimento da personalidade, pois é preciso se compreender que a maturidade é um processo contínuo, ininterrupto, e envolve muito mais que o acúmulo mecânico de conhecimento, mas uma transformação orgânica da psique.

 O BULLYING DE SOLUÇO

Esquema consciente/inconsciente
 A vida de Soluço é permeada pelo desprezo alheio e, por conseguinte, pela autorejeição. Devido ao filho não praticar o que é aceito como certo sem reservas pelo seu povo, Estóico e outros personagens o rejeitam e o consideram um fraco, um bizonho e um desajeitado. Soluço se sente tão deslocado quanto o cisne no conto do Patinho Feio, de Hans Christian Andersen. Ele se sente um cisne em um país de patos. Alguns diálogos deixam isso bastante explícito. Bocão diz mais ou menos assim: “Se quiser sair para matar dragões, você precisa parar de ser você todo”. Por ser explicitamente tão dividido, e ser consciente disso, é que Soluço faz as coisas de maneira tão desajeitada, desastrada. Seu corpo e sua mente não são conectados. Ele mesmo se sabota a todo momento.
 Talvez por esse motivo seu nome seja “Soluço”. No Aurélio, soluço é um reflexo em que ocorre uma contração involuntária do diafragma, um espasmo que produz o início da inspiração do ar, o qual é detido subitamente pelo fechamento da glote, com a produção de ruído próprio. Isto é, soluço é uma interrupção, pela glote, de um espasmo de respiração. E o filho de Estóico parece se interromper de todas as maneiras, para agradar a todos. É um soluço ambulante, detendo o fluir da própria vida, interrompendo sua “inspiração”, seu interesse genuíno.
 De início, ele aceita o discurso do amigo Bocão e do pai, inclusive o bullying dos colegas, mas acaba percebendo que não leva jeito para caçador de dragões. Estóico, ao mesmo tempo que quer ver no filho um grande matador de dragões, o superprotege, não o expondo aos bichos. Tudo leva a crer que isso se deve ao primeiro contato de Soluço, ainda bebê, com um dragão que ele crê ter matado sua esposa, mas que, na verdade, depois se tornou aliado dela (CTSD 2).
Colegas debochando de Soluço
 Além disso, ele parece ser muito consciente de sua situação insustentável e das consequências para si mesmo. Quando Bocão diz que Soluço tem de deixar de ser ele todo, responde: “O senhor está jogando um jogo muito perigoso querendo manter toda a minha 'virgindade' máscula reprimida”. Ele pode parecer estar fazendo uma brincadeira irônica, mas está afirmando uma verdade psicológica fundamental. Porém, o que ele quer dizer com “virgindade máscula reprimida”? Virgindade máscula talvez porque não tinha ainda “deflorado” sua masculinidade, expressando-a, expondo-a da maneira como queria, ousando de acordo com seu ser. É um adolescente, um macho da espécie, mas parece não ter levado uma infância comum, subindo árvores, brincando com a exposição aos perigos comuns e afins à idade. Seu “eu” ainda era virgem no sentido de não ser ativo, de não ousar fazer, de não tentar ir “contra a corrente”. Não tinha iniciativa, pois esta deriva do interesse genuíno por determinada atividade. Não estava afim de ser o viking que seu pai queria que ele fosse.
 Segundo algumas pesquisas, os alunos que são exclusivamente vítimas de bullying (pois existem vítimas que também praticam bullying) costumam ter mães supreprotetoras, atenção infantilizada da família e serem considerados “bodes expiatórios”. Eles se apresentam à sociedade (persona) como pouco sociáveis, inseguros, passivos, retraídos, possuem poucos amigos, baixa autoestima, têm pouca expectativa de adaptação ao grupo e não sabem reagir de forma a cessar o bullying (LOPES NETO, 2005, p. S167-168; BANDEIRA e HUTZ, 2010, p. 132-133; e WILLIAMS e PINHEIRO, 2009, p. 1013). É surpreendente como toda essa descrição se encaixa de forma perfeita em Soluço. No início, ele é realmente o bode expiatório local, isto é, ele carrega os pecados ou defeitos de todos, e tem de arcar com isso.
 Ainda, de acordo com os mesmos estudos, os agressores de bullying costumam criticar na vítima o seu corpo, tamanho e desenvolvimento físico. O corpo frequentemente porta o lado sombrio do eu, e é muito sujeito a carregar as projeções alheias, pois produz elementos incômodos que não podem sequer ser citados em muitas ocasiões. O corpo representa algo do qual todo mundo quer naturalmente se livrar (JUNG, 2008, §40). Soluço é muito franzino e fraco, de constituição física quase, senão totalmente, oposta à do pai, de Bocão e dos colegas. Seu corpo com certeza representa tudo o que eles não querem ser e rejeitam em si mesmos.
 A persona do agressor de bullying é diametralmente oposta à da vítima e vice-versa, e representa o lado sombrio desta. O primeiro reprime em si as características de insegurança, inadaptação, pouca sociabilidade, baixa autoestima, passividade, timidez, etc., e as projeta violentamente sobre a vítima, pois a projeção ajuda a obter um retorno positivo das pessoas presentes, quando estas também não concordam em aceitar aspectos sombrios (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 70). Aquele que projeta, no caso, tanto Soluço quanto os habitantes de sua aldeia, são incapazes de diferenciar a outra pessoa dos próprios complexos, separar fato e fantasia, perceber onde termina a própria personalidade e começa a do outro. Soluço não percebe o quanto pode ser ousado, forte e revolucionário se seguir seu próprio coração, seus instintos, e, por isso, fazer dar certo. Todo mundo é bom no que faz, menos ele. De início, projeta seu próprio potencial nas outras pessoas. Estas, por outro lado, não admitem outra realidade além da rotina a que estão acostumadas. O paradigma em vigor é: “mate, elimine os dragões porque eles são maus, caso contrário matarão vocês”. Sua sombra é o anseio arquetípico do bode expiatório, de ter alguém para culpar e atacar para poder se justificar e se absolver (WHITMONT, 2002, p. 145-146).

 O INDIVÍDUO, A SOCIEDADE E O INCONSCIENTE

 Berk, a cidade dos vikings, possui uma cultura radicalmente patriarcal, sem nenhum espaço para o feminino. As poucas mulheres que aparecem, as adolescentes colegas de Soluço, têm modos masculinos e agressivos. Em um dos diálogos de Estóico com Bocão sobre Soluço, ele relembra como o pai o mandou uma vez bater a cabeça em uma rocha e esta se partiu. “Aquilo me ensinou do que um viking é capaz... Aplainar montanhas! Devastar florestas! Domar os mares! Mesmo quando era garoto, eu sabia o que iria ser. O Soluço não é como aquele garoto.” Exterminar a natureza é uma prática moderna, assim como dos conquistadores há mais de um milênio. “Quando você carrega este machado... você carrega todos nós com você. Quer dizer que falará como nós e andará como nós. E pensará como nós. Chega disso aí.”, diz Estóico, apontando para o filho. O que interessa é o coletivo, não a criatividade, não a individualidade ou a originalidade. O filho deve enquadrar-se e ser o que é esperado dele. O conceito que Estóico tem do filho parece reduzir-se tão somente à caça de dragões. Não existem outros aspectos, outras qualidades ou defeitos, mas apenas aquilo que se relaciona ao objetivo do povo de Berk. No segundo filme percebe-se que Soluço herdou a atitude receptiva para com os dragões da própria mãe. Logo, esse é um aspecto frontalmente em oposição ao preconceito machista, ao masculino unilateral, enquanto associado ao feminino e ao princípio de Eros.
Soluço desiste de matar Banguela
 Por isso o filho de Estóico acha um jeito de conquistar os dragões cativos do seu reino ao invés de dominá-los ou matá-los, interagindo com Banguela. Ele tenta aparentar fazer isso pela força, para obter a aprovação do pai e das outras pessoas, mas não consegue sustentar a máscara, pois é um introvertido que, como tal, leva em conta a verdade pessoal e não os valores coletivos. Por isso, no início do primeiro filme ele tenta abater um dragão para aplauso geral, tenta matar o que representa sua sombra, pois não suporta mais a rejeição e quer se conformar à expectativa geral. Entretanto, ele não consegue suportar o sofrimento dessa manobra. Encontra-se, por isso, entre duas atitudes completamente opostas: aderir à expectativa do pai e da população ou confrontá-la e seguir seu próprio rumo, seu coração. 
 Conformar-se a apenas uma atitude é necessário para o desenvolvimento da consciência, pois esta implica direção, atenção, um foco intenso sobre algum objeto. Isso pode ser entendido como uma unilateralidade ou parcialidade da consciência. Mas é uma vantagem e ao mesmo tempo um inconveniente. Isso porque cria-se, com a adesão consciente a uma qualidade ou característica, uma condição oposta de mesma intensidade no inconsciente, a menos que ocorra um caso ideal em que o conjunto consciente/inconsciente flua na mesma direção, o que raramente acontece. Essa oposição será inofensiva enquanto a intensidade de seu valor não for maior. Mas se a tensão desses opostos aumenta, graças a uma adesão unilateral grande demais, a tendência oposta surge na consciência, quase sempre no preciso momento em que é muito importante se manter a direção consciente. Devido ao alto grau de tensão energética, e o inconsciente se encontrar carregado, este momento é crítico, podendo ocorrer uma explosão com a liberação do conteúdo inconsciente (JUNG, 1991a, §138). No caso de Soluço não ocorre essa explosão, mas ele é conduzido inevitavelmente de encontro ao que mais teme: à amizade com um dragão. A tensão para que não se conduza de modo diferente da cultura local é tal que ele não resiste à força do inconsciente. Este se carrega de mais energia, e ele cede. 
 O fato de Soluço conseguir montar Banguela e usar diferentes técnicas para gerenciar seu voo, parece significar a habilidade de se querer intensificar, intencionalmente, a autonomia do inconsciente, a fim de interagir com este. Esse processo ocorre na imaginação ativa, uma técnica psicológica que consiste em se aproveitar a propriedade de animação dos conteúdos inconscientes, isto é, de se “moverem e falarem” internamente na psique, sem auxílio do eu. Assim, Soluço, interagindo com seu inconsciente, seu dragão, consegue integrá-lo cada vez mais, aprender com ele e superar diversos obstáculos que, de outro modo, seriam intransponíveis. Mas isso ocorre lentamente, com diálogos e feedback mútuo.
 Quando o Fúria da Noite tem seu primeiro contato com Soluço, sai ferido, pois perde parte de sua autonomia (o estabilizador esquerdo da cauda), não sendo mais capaz de voar plenamente. Soluço, aplicando todo o seu esforço consciente, a técnica e a atenção, consegue fazer uma espécie de “flap” para estabilizar o voo de Banguela. A partir daí, este não é mais capaz de voar sem auxílio do amigo humano. Isso representa, psicologicamente, o contato da sombra com o inconsciente, e as consequências disso para este. Mais tarde, Soluço irá perder a perna esquerda, refletindo que, no processo de integração consciência/inconsciente, percebe-se, em cada nível, que ambas as partes não podem ser independentes uma da outra, pois fazem parte do mesmo sistema psíquico. Daí a observação de sua mãe de que ele e Banguela possuem a mesma idade. Então a consciência sabe que dependerá do inconsciente para conseguir alçar altos voos, para conseguir energia e disposição, interesse no que precisa e deve fazer. Por outro lado, o inconsciente também sabe que precisa da consciência como guia, para tomar decisões e dirigir a energia de que dispõe. Apenas sabendo que é tanto cavalo quanto cavaleiro, tanto copa quanto raiz da mesma árvore, pode o homem se sentir inteiro para viver plena e saudavelmente sua vida.
Soluço aproxima-se de Banguela, e a consciência do inconsciente
 Um dos momentos mais marcantes do filme é a cena em que Soluço finalmente consegue conquistar a confiança de Banguela. De início, ao libertá-lo das amarras, ele desmaia, surpreso, após o terror que sente frente à ferocidade do animal. Depois tenta oferecer peixes como refeição e recompensa, é obrigado a se desarmar de uma faca primeiro, o bicho come e o retribui com um pedaço de peixe regurgitado. Soluço tenta tocá-lo, mas ele foge e faz um círculo protetor no chão para descansar. Depois desenha distraído no chão, Banguela se aproxima e desenha um labirinto na terra e, por meio de tentativa e erro, Soluço resolve o enigma pulando as linhas e chegando até ele. Percebe que ao tentar tocá-lo ele rosna. Então, faz sua parte apenas erguendo o braço e espera que o dragão o toque, o que ele faz. A aproximação se dá mutuamente, pela iniciativa do cavaleiro e do animal. Soluço tocá-lo, em um gesto unilateral, é ofensivo, mas erguer o braço e esperar pela sua resposta, não. Banguela cede, no entanto parece demonstrar certo orgulho, como se fosse uma espécie de autoridade. Então se afasta e voa. Mas o vínculo se estabelece. Assim é, de início, a aproximação do inconsciente.
 O processo psicoterápico é repleto de “altos e baixos”, com vários sucessos de contato com o inconsciente, mas também de inesperados desencontros. Ora se está em harmonia, ora irritado, triste, de novo centrado... Em certo momento se consegue esclarecer, com algum ponto de vista, um problema de relacionamento, e a personalidade se sente em paz. Semanas depois o mesmo problema volta a ocorrer, como se anteriormente não houvesse sido solucionado, mas se percebe que agora é requerida outra perspectiva, e a trama complexa é entendida de maneira nova, em acréscimo à outra ocasião. Aos poucos percebe-se, com a vivência da psicoterapia, que o caminho se constitui de avanços e retrocessos, que se deve aceitar tanto as retas quanto os desvios, que os supostos “defeitos” só o são sob certo ponto de vista. Supostas imperfeições são qualidades valiosas em determinadas situações, na intensidade adequada. São vistas como deficiência apenas por serem empregadas em momentos inapropriados pois, como não são aceitas pelo indivíduo, este não consegue gerenciá-las. Uma vez reprimidas, não existem para ele, ou, se são admitidas, são evitadas. Reprimir elementos da personalidade pode ser expresso em sonhos como o assassinato de uma pessoa ou animal, por exemplo. 
 Isto pode ser um sinal de alerta. Em geral, representa uma separação violenta de um conteúdo inconsciente. Esse afastamento pode ser a negligência de capacidades e talentos, ou expressar a separação de alguém (HARNISCH, 1999, p. 32) ou uma mudança nesse relacionamento. Ora, se tais conteúdos são projetados em outras pessoas ou animais que representem essas capacidades, estes podem ser alvo, no mundo real, de críticas, violência ou, dependendo do grau de inconsciência do sujeito e de seu temperamento, de assassinato. É o que ocorre com os dragões nos filmes em estudo. Conteúdos psíquicos de Soluço são negligenciados devido a este ter medo de se diferenciar dos demais, tornar-se anormal ou ser considerado louco. O mesmo ocorre com Berk ao nível coletivo. Ninguém pode se desviar da norma, devido ao risco de ser rejeitado pela coletividade. As pessoas, assim como os “defeitos” que representam, devem ser aceitas como indivíduos diferentes que são, apesar, ou melhor, justamente por causa das distinções. Pessoas iguais não fazem uma sociedade, mas uma multidão, uma massa informe. Ao invés de reprimir, renunciando-se à chance de se gerenciar tais deficiências, deve-se admiti-las e aprender a lidar com elas.
 Mais tarde, Estóico diz que o filho passou para o lado dos dragões, mas está errado, já que Soluço conseguiu se posicionar de maneira a aceitar ambos os lados. O pai não consegue entender a capacidade de o filho conseguir conciliar os lados opostos. Como introvertido que é, Soluço simplesmente consegue perceber que o que ele via em Banguela era ele mesmo. Nas suas próprias palavras: “Olhei para ele e vi a mim mesmo.” Sim, porque os dragões representam uma soma de carências, de buracos, no povo de Berk, já que aprendeu a esconder partes vitais de si mesmo.

 O SENTIDO DO DRAGÃO

Marduk luta com Tiamat, o dragão primordial
 A chave para se compreender CTSD é atentar para o significado do dragão. Este é um símbolo extremamente vasto e abrange a figura da serpente. Conforme Eliade (1992, 29-30) expõe neste e nos parágrafos a seguir, mitologicamente, “nosso mundo” é uma reprodução da obra dos deuses, a cosmogonia. Logo, os adversários que o atacam são similares aos demônios, sobretudo ao Dragão primordial vencido pelos deuses nos primórdios dos tempos. É como se o ataque ao “nosso mundo” fosse uma desforra do Dragão mítico, se rebelando contra a obra dos deuses. Assim, toda destruição de uma cidade equivale a uma regressão ao Caos, e toda vitória contra o inimigo, à vitória exemplar do deus contra o Dragão (Caos). No Egito, o faraó e seus inimigos eram assimilados ao deus Rá e seu opositor, o dragão Apophis. Dario se identificava com um herói mítico iraniano que se dizia ter matado um dragão de três cabeças. A tradição judaica descrevia os reis pagãos com traços de dragões (ver Nabucodonosor em Jeremias 51, 34, e Pompeu nos Salmos de Salomão 9, 29).
 O dragão equivale ao monstro marinho, à serpente primordial, e é símbolo das águas cósmicas, das trevas, da noite, da morte, do amorfo e do virtual, de tudo aquilo que ainda não tem uma forma. Nos mitos foi vencido e esquartejado pelo deus para que o cosmos viesse à luz. Marduk deu forma ao mundo a partir do corpo do monstro marinho Tiamat. Jeová criou o universo após a vitória contra o monstro primordial Raabe. [Nota do editor do blog: Na versão da Bíblia de João Ferreira de Almeida há o seguinte versículo: “Porventura não és tu aquele que cortou em pedaços a Raabe, e traspassou ao dragão?” Isaías, 51, 9] Porém, essa vitória do deus sobre o dragão deve ser repetida simbolicamente todos anos, pois todos os anos o mundo é recriado. Da mesma forma, a vitória do deus contra as forças das trevas, da morte e do Caos se repete a cada vitória da cidade contra os invasores.
Muros protegiam as cidades na Idade Média
 No início, é muito provável que as fossas, labirintos, muralhas, etc., que protegiam as cidades e vilas tenham sido defesas mágicas para impedir a invasão de demônios e das almas dos mortos, mais do que a ataque de humanos. Na Índia se fazia um círculo em volta da aldeia para se interditar os demônios de uma epidemia. Na Idade Média, os muros das cidades eram consagrados ritualmente como defesas contra o demônio, a doença e a morte. Aliás, para o pensamento simbólico é muito fácil se assimilar o inimigo humano ao demônio e à morte, já que o resultado dos ataques demoníacos ou militares é o mesmo: a ruína, a desintegração e a morte. Ainda nos dias de hoje as mesmas imagens são usadas ao se formular os perigos que ameaçam certas civilizações: fala-se do “caos”, da “desordem” e das “trevas” onde “nosso mundo” se afundará. Essas expressões significam a abolição de uma ordem, de um Cosmos, e a nova submersão num estado fluido, amorfo e caótico. São prova de que imagens arquetípicas ainda sobrevivem, mesmo na linguagem do homem não religioso (ELIADE, 1992, 29-30).
 Berk possui uma estrutura social organizada e há muito estabelecida. Os dragões representam o caos, a desordem que se seguiria se passassem a não mais persegui-los. Tudo seria reestruturado, e seria inevitável um certo nível de desordem inicial.
 No livro “As crônicas de Nárnia”, no capítulo “A viagem do Peregrino da Alvorada”, de C. S. Lewis (2011), assim como no filme correspondente, existe um menino muito impertinente, irritante, arrogante e crítico, chamado Eustáquio Mísero. Quando ele se perde do seu grupo, avista um dragão à beira da morte e dorme por uma noite em sua caverna. De manhã, descobre que havia se transformado, para sua surpresa, num dragão. Acaba encontrando seu grupo sob a nova forma e consegue se revelar. O leão Aslan o faz voltar à forma humana ao dizer para se banhar em uma fonte, uma piscina redonda, e tira sua pele escamosa, como ocorre com a serpente, que perde a antiga pele. Mas o mais interessante é a transformação de personalidade que passa Eustáquio. Ele se arrepende de seu comportamento anterior e se torna uma pessoa muito mais gentil e um verdadeiro herói, que continua as aventuras em Nárnia no lugar dos primos. Mas por que essa mutação psíquica ocorre após ele se transformar em dragão? Ora, porque é preciso que uma forma se “derreta”, perca seus contornos originais, se “desforme”, se “descasque”, se funda e se dissipe, para depois ganhar um novo contorno. Como Eliade (1992) afirmou anteriormente, o dragão representa uma nova imersão num estado amorfo e caótico, o início de uma nova ordem. Como Cristo disse em Mateus 18, 3: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus.” (BÍBLIA, 1985). A criança é outro símbolo para o amorfo, isto é, a versão do ser humano original. Voltar a ser criança é se fundir para se deixar emergir em nova versão. É preciso morrer – outro sentido para o dragão – para nascer de novo.
 Algo semelhante ocorre em “O Hobbit”, de Tolkien, e também no respectivo filme. Os anões, Bilbo e Bard saem transformados no confronto com Smaug. Segundo a Wikipédia (2015), seu nome deriva do alemão primitivo “smugan”, significando “deslizar em um buraco”. Remotamente, também se liga ao nome “smeagol” que, no inglês antigo, aparece na forma “smygel” que tem o sentido de “terrier, lugar em que se escorrega”. Smeagol remete a Gollum, a criatura sombria da qual Bilbo rouba o anel. Não é preciso muita imaginação para relacionar um buraco às trevas, assim como a Gollum e, por sua vez, ao dragão Smaug. Bilbo Bolseiro sai da caverna de Gollum, assim como do confronto com o dragão, descobrindo qualidades que nem imaginava que tinha. Também todos os anões saem transformados, principalmente Thorin. Bard, então, se transforma de pescador em herói e depois em rei.
 O “Ciclo da Herança”, de Christopher Paolini, é uma fantasia épica em que existem cavaleiros de dragões, como ocorre em CTSD. Desta quadrilogia foi feito um filme do primeiro livro, “Eragon”, possivelmente conhecido por quem não leu os livros. A integração que existe entre cavaleiro e dragão pode ser comparada à dos filmes em análise. Aqui apenas é mais “mística”, já que ambos compartilham suas consciências. É uma espécie de simbiose, pois se um morrer, o outro sente como se tivesse perdido uma parte de si mesmo e pode vir a perecer pelo luto. O relacionamento dragão/cavaleiro aponta para um simbolismo unitário: a dupla na verdade é um só elemento, que é visualizado como dois, consciente e inconsciente. E essa mesma expressão aparece no filme em estudo.
A integração dragão/cavaleiro em "Eragon"
 “Como treinar o seu dragão” é uma animação bela, de enredo comovente, voltada não só para crianças, mas também, e talvez muito mais pertinente, para adultos. É preciso que cada um reconheça o dragão que pode ser, o potencial embutido em seu interior, caso contrário este se torna destrutivo. É o que ocorre, por exemplo, com o povo brasileiro atualmente. Faz-se extremamente necessário que ele perceba como o dragão da corrupção se encontra presente em sua psique coletiva, o quanto é levado impulsivamente a agir em proveito próprio quando se trata do bem público ou alheio, mesmo que seja em um detalhe insignificante. A medida do ódio contra os corruptos corresponde ao grau da corrupção projetada, contida internamente. Não é que não se deva providenciar cadeia a eles. Trata-se, antes, da decisão de concordar em punir com a consciência de que se é punido com eles, de que a corrupção não pertence só ao outro. E que se deve gerenciar este dragão específico, questionar o motivo de querer tocar no bem alheio e, iluminado por essa clareza, usá-lo para encontrar o tesouro interno: a diferenciação dos próprios valores, encontrar importância no que se tem por meio do próprio mérito e, ainda, votar com consciência.

(As referências não encontradas aqui podem sê-lo no banco de referências deste blog: clique aqui.)

BANDEIRA, Cláudia de Moraes; HUTZ, Claudio Simon. As implicações do bullying na autoestima de adolescentes. Psicol. Esc. Educ. (Impr.),  Campinas,  v. 14,  n. 1, jun.  2010 .   Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-85572010000100014&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em  12  jun.  2012.

BÍBLIA. Português. A bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

LEWIS, C. S. As crônicas de Nárnia. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

LOPES NETO, Aramis A. Bullying: comportamento agressivo entre estudantes. J. Pediatr. (Rio J.),  Porto Alegre,  v. 81,  n. 5, Nov.  2005 . Disponível em < http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0021-75572005000700006&lng= pt&nrm=iso&tlng=pt >. Acesso em  23  abr.  2012.

WIKIPEDIA. Smaug. Acesso em 10 fev. 2015.

WILLIAMS, Lúcia Cavalcanti de Albuquerque; PINHEIRO, Fernanda Martins França. Violência intrafamiliar e intimidação entre colegas no ensino fundamental. Cad. Pesqui.,  São Paulo,  v. 39,  n. 138, dez.  2009 . Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php? pid=S0100-15742009000300015&script=sci_arttext >. Acesso em  17  jul.  2012.
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